espuma salgada de renovação
vou falar sobre o meu ano de 2024, porque sou um humano e é isso que os humanos fazem, pensar e dizer e fingir que a nossa vida é a maior obra prima que alguma vez existiu. vou tentar não ser muito existencialista hoje, estou num mood diferente, mais leve que o normal quando escrevo. na verdade, sinto-me tão bem que nem sei bem o que escrever. é algo que me acontece frequentemente, escrever apenas quando sofro, para transformar o sofrimento em algo tolerável.
como foi o meu 2024? obrigada por perguntares! sinto que, sobretudo, foi um ano transitório. sinto que passei muito do ano num casulo muito confortável. como referi noutro texto, o meu pós 2022 foi conhecer de novo o significado de estabilidade e conforto e calma que já há algum tempo que não via. por isso, em parte, as grandes mudanças que a vida me reservou em 2024 pareceram muito mais dignas de reflexão e impacto emocional, talvez pelo meu mood geral. no entanto, tudo o que é bom acaba, para dar lugar a outras coisas igualmente boas. assim, no final do ano, dia 18 de outubro, mudei-me para a bélgica de novo, porque o casulo começou a não fazer sentido. nunca percebo bem quando uma realidade se começa a desmoronar, porque tento lidar pacificamente com o que acontece. mas a verdade é que várias coisas começaram a soar errado, ou insuficiente. e por mais acolhedor que seja o casulo, há que saber dizer adeus.
reaprendi a dizer adeus, como já disse tantas vezes noutras ocasiões, a lugares, a pessoas, a versões de mim. em 2025, espero estar mais em paz com as escolhas que faço, pois não me sinto hoje muito decidida de mim, mas é um problema de adaptação e não da bélgica. gosto muito de acordar num país cinzento (só porque é tão diferente da minha realidade) e de tentar participar numa língua quase élfica (apenas porque sei escrever na minha) e comer batata em maioria das refeições (querido azeite e bacalhau). sou bem-recebida numa família que me ama de uma forma que só conheci na casa da Matilde, ser tão amada por um núcleo familiar que não é o meu (mas que se torna, em parte).
viver no estrangeiro foi uma decisão que se alimentou de cada passo que dei em Lisboa em 2024. precisava de voltar a casa, e agora preciso de ir. algo começou a soar incerto, o que suspeito que signifique o fim de uma era, de uma forma que nunca senti antes, uma fase da vida. um evento que o impulsionou foi a venda da casa de férias da minha avó. foi um evento profundamente emocional, mas, ao mesmo tempo, bastante natural. ninguém nos arrancou a casa das mãos, fez sentido. a minha avó precisava de o fazer, e nós só temos a agradecer-lhe os anos incansáveis de almoço, praia, banho, jantar e, às vezes, feira, que fizeram os nossos verões tão felizes, por causa dela. é engraçado como nós vemos sempre a vida da nossa perspetiva, com as nossas pessoas como personagens muito valiosas, mas essas pessoas vivem a sua vida exatamente da mesma maneira. a minha avó nunca perceberá as memórias de infância que tenho de a ver no sofá de camisa de noite a ver televisão, no lugar que era só dela; de comer no meu lugar à mesa, ao pôr do sol, a olhar para a arriba fóssil como quem ainda está submersa. se gosto tanto de praia, é porque consigo ainda sentir o cheiro e o frio do oceano nos meus pés de 3 anos, oceano que também sempre me acolheu como se eu lhe pertencesse.
sou mesmo muito sortuda. a minha única meta de 2025 é continuar a gratidão que sempre tive. este ano vai ser cheio de experiências novas e preciso de estar capaz de as receber. não posso ter um pé em mar e outro em terra, mas estou condenada a que isso aconteça sempre pelo menos um bocadinho. o meu caminho é um, que é só e apenas o que eu decidir fazer e como decidir reagir ao que me acontece. em 2025 quero correr até levantar voo, dançar como se nunca tivesse dormido e dar muito muito amor - é só assim que me mantenho viva.
obrigada por me leres e receberes, mais uma vez, quem quer que sejas!
na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
- José Luís Peixoto

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