a propósito da liberdade
Música: Somos livres - Ermelinda Duarte
"Uma gaivota voava, voava,
Asas de vento, coração de mar.
Como ela, somos livres,
Somos livres de voar".
celebrámos 49 anos livres num dia muito quente de primavera. nunca sei o que dizer nesta data que me absorve de coisas a dizer todos os anos. sinto-me elétrica por saber que a minha existência é completamente livre na sua essência e incomoda quem não tem princípios básicos democráticos. adoro existir e reconheço a sorte que tenho. costumo dizer que o 25 de abril é o meu natal, porque é o único feriado e festividade que me faz saltar da cama e me aperta o peito o dia todo. "esta terra hoje nossa", que, no fundo, sempre nos pertenceu, a minha querida Lisboa, Portugal, vive hoje sem bolor. é interessante pensar como a classe política e as elites são só construções práticas, não somos nós e eles, somos só nós e devemos ter sempre a consciência e empatia coletiva para nos governarmos.
fascismo apodrece por dentro e mancha tudo o que toca. questiono-me também sobre que partes do nosso povo foram influenciadas pela imposição ideológica. seremos tendencialmente conservadores e passivos por acaso? quanto aguentamos ser pisados? a nossa resiliência por vezes vai longe demais, mas penso que nos mantemos sempre fiéis ao nosso ser. um povo pacífico, que recebe nas suas casas e partilha do seu pão; unidos como amigos a jogar xadrez, "à sombra de uma azinheira, que já não sabia a idade", com cerveja fresquinha a acompanhar. o nosso espírito nacional assemelha-se muito mais a um cuidar da família, não em loucura patriota. Portugal é, de facto, mágico e digno de louvar, e não é por acaso que os emigrantes choram o não ficar; as velhotas sabem as ruas de cor; os estrangeiros saem mudados ao aprender o que para nós significa saudade.
saudade é a melancolia e nostalgia de ver a beleza nas experiências, locais, pessoas e ansiar eternamente por poder estagnar no tempo, não deixar escapar as costureiras, os senhores de fato e bigode, as tardes de verão, o rir com amigos na esplanada, o passear pelas ruas citadinas e apanhar o metro de volta para comidas quentes, feitas com amor e repletas de azeite, sem muita batata, para não engordar. gostava de poder ter ouvido o meu avô neste tópico, tenho imensas perguntas para lhe fazer. quero que saibas, avô, que se pudesse voltar atrás, teria participado na revolução e na libertação de um povo que precisa que o deixem estar, e que, mesmo quando faz uma revolução, é com música, paz e flores.
Um obrigada especial a Salgueiro Maia, Amália Rodrigues, Zeca Afonso, José Mário Branco, e a todos os portugueses que disseram "não quero".
Salgueiro Maia: “Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!”
É tomada a Escola Prática de Cavalaria de Santarém, ao mesmo tempo que se inicia a movimentação de tropas em Estremoz, Figueira da Foz, Lamego, Lisboa, Mafra, Tomar, Vendas Novas, Viseu, e outros pontos do país.
deixo estas fotos que tirei na passada terça-feira, na comemoração da liberdade enquanto condição necessária para a emergência da verdade, com pessoas bonitas, conhecidas e desconhecidas.
"Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo"
Sophia de Mello Breyner Andresen em "O Nome das Coisas"
Tenham um dia bonito, sejam icónicos, digam amor e elogiem as pessoas na rua ☮







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