capítulos e idades e reflexões

    O bom que eu tiro de escrever é que consigo prolongar por um bocadinho mais tudo o que sinto e vivo. Crescer é muito estranho e acelerado e bonito, e sinto que consigo dividir mais ou menos a minha vida em alguns capítulos até agora: a minha infância, pré-adolescência, e a partir daí são períodos mais curtos, por terem sido tão intensos. A minha adolescência tem o capítulo do 8º e 9º ano, em que senti a minha consciência a acordar a sério pela primeira vez; o secundário, mágico em muitos sentidos e mais negro noutros, onde senti um cheirinho a liberdade. O início da faculdade, onde comecei e acabei a minha primeira relação queer, onde consolidei a minha identidade e conheci amigos que quero levar para a vida. Aprendi também mais sobre o que quero. Depois 2022 foi um capítulo inteiro por si só. Vivi uma década nesse ano e agora olhando para trás tenho saudades de muito desse período porque se evaporou quase tudo no início de 2023. É muito difícil encapsular fases tão diferentes umas das outras e ao mesmo tempo tão contínuas. Conheci imensa gente em 2022 que hoje já não fazem parte ativa da minha vida, mas que levo com muito amor. Fui de Erasmus, fiz um interrail, aprofundei relações e criei laços com pessoas e locais que me moldaram a realidade. Comecei a namorar e levo até hoje a relação mais longa que alguma vez tive, com alguém que cuida de mim com o amor que eu mereço, e eu amo-o igualmente imenso. Conheci a família dele, que me ama como se eu sempre tivesse feito parte.

    O último capítulo começou em 2023 e ainda não acabou. De volta a Portugal, que foi bom durante uns tempos, especialmente com o meu namorado importado. Mas ter visto tanto do mundo e vivido tão livremente durante 1 ano torna por vezes estranho a vida que hoje tenho levado. No mestrado, a trabalhar part-time, com menos disponibilidade para ser louca e espontânea. Como disse, é só estranha esta adaptação, não melhor nem pior, porque por um lado adoro a estabilidade e organização que a minha vida tem adquirido no último ano. Faz-me ver que não a quero nem posso levar para sempre (como nenhum capítulo, graças a deus), e quero sempre empregos que me façam feliz e que sejam desafiantes e onde eu seja uma parte essencial. O que me motiva menos é sentir que tenho menos tempo para mim e para estar na minha bolha mental (muito essencial para a minha estabilidade). Passo muito tempo sentada e quase nunca tenho fins de semana livres e vivo entre 2 ou 3 casas. Sei que os hábitos se cultivam e acho que tenho feito um bom trabalho nesse sentido. Gosto do meu emprego e gosto do meu mestrado. Gosto das pessoas na minha vida e sinto-me com uma maturidade e poder de controlo que nunca tinha sentido. A vida de 2022 foi linda e vou levá-la para sempre, mas já não se encaixaria no meu eu de hoje. No fundo, eu procurei um mestrado e um part-time e estabilidade e independência. Acredito piamente que é possível não nos perdermos de nós mesmos com o avançar da vida, e é só essa a única certeza que tenho. E é muito importante ter connosco pessoas que nos validam e ouvem e incentivam a continuarmos fiéis a quem somos.

    Não espero de ninguém menos do que eu espero de mim mesma: respeito, honestidade, imperfeição, humildade, fazer merda e pedir desculpa. Pedir desculpa aos outros e a nós, e refletir sempre e não nos deixarmos levar por uma corrente invisível do rumo da vida que toda a gente leva. Não quero nunca fazer coisas que não me fazem sentido fazer e acho que a minha geração vai revolucionar o mundo com a sua intencionalidade e empatia. É muito muito difícil fazê-lo no mundo em que vivemos, mas é possível, dentro de mim e dentro de todos. Florescem coisas e projetos e relações muito bonitas dessa leveza de ser (mesmo que pesadamente).

    Por fim, mando um beijinho e o maior obrigada a todos os que já passaram pelo meu caminho, para o bem e para o mal, e especialmente às pessoas de 2022. Procurei-vos e encontrei-vos e aprendi muito, e levo-vos sempre no coração.


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